Não era uma arma. Foi pior. Era um chaveiro.
Um velho chaveiro de couro preto, com uma placa de metal arranhada onde ainda era possível distinguir uma letra: R. Senti o ar ficar preso no meu peito. Porque aquele chaveiro também era meu. Não é meu a partir de agora. O meu de antes. Há muito tempo atrás. Do meu marido. De Robert.
O mesmo chaveiro que ele carregava quando ainda caminhava comigo pela feira, quando ele ainda me dizia, “Betty, não compre tantas pimentas ou você vai reclamar depois,” quando ele ainda ria com aquela tosse seca que teve por tantos anos trabalhando na padaria.
Aquele chaveiro desapareceu no dia do seu velório. Pensei que um convidado o tivesse levado por engano. Ou que tinha caído entre as flores. Ou que, em meio à dor, eu mesmo o perdi. Mas lá estava. Na mão suada de um garoto que tinha acabado de roubar minha bicicleta.
Por um segundo, meu aperto diminuiu. E o ladrão sentiu isso. Ele puxou o pulso em desespero, tentando se libertar, mas reagi antes que ele pudesse dar um passo. Torci seu braço atrás das costas, coloquei-o de joelhos e coloquei minha mão na nuca dele —sem machucá-lo, mas deixando bem claro que mover-se era uma má ideia.
—”Onde você conseguiu isso?” Eu perguntei. Minha voz não soava mais raivosa. Parecia frio.
O garoto engoliu em seco. —”Não sei do que você está falando.” Apertei-lhe o pulso um pouco mais forte. —”Olhe atentamente para mim, garoto. Aos oitenta e cinco anos, uma mulher não tem tempo para mentiras baratas.”
Minha neta se aproximou, ainda gravando, mas quando viu meu rosto, abaixou o telefone. —”Vovó… o que aconteceu?” Eu não respondi. Meus olhos estavam grudados no chaveiro. Tinha uma mancha escura num canto. Uma mancha que eu conhecia bem. Robert fez isso com café uma manhã, quando estava correndo porque estava atrasado para abrir a padaria. Ele nunca quis substituí-lo.
—”Aquele chaveiro pertencia ao meu marido”, eu disse lentamente. “E meu marido morreu há nove anos.”
A multidão parou de rir. O parque parecia estranho. Como quando uma nuvem de repente cobre o sol e até os pombos parecem entender que algo mudou.
O ladrão ficou quieto. Muito quieto. —”Eu… eu comprei,” ele murmurou. —”De quem?” —”Um cara.” —”Que cara?” —”Eu não sei.”
Eu mal torci a mão dele. —”Sim, você faz.” —”Ai! Tudo bem, tudo bem! Minha mãe me deu!”
Minha neta soltou um suspiro. —”Vovó, vamos chamar a polícia.” —”Eles já estão a caminho”, disse um homem lá de trás. “Liguei para eles quando o show começou.”
O garoto fechou os olhos com força, como se a palavra policiais tivesse lhe dado um soco no estômago. —”Não, por favor. Não deixe que me levem.” —”Você deveria ter pensado nisso antes de roubar.” —”Você não entende, moça.” —”Claro que entendo. Você gostou do que não lhe pertencia.”
—”Não!” ele gritou e, pela primeira vez, sua voz quebrou. “Eu não queria vendê-lo por drogas ou algo assim. Era para medicina.”
Olhei para ele. Eu já tinha ouvido essa história muitas vezes. No dojang, na rua, na vida. Algumas pessoas usam a pena como uma jaqueta para esconder seus maus hábitos. Mas havia algo em seus olhos. Medo, sim. Uma pena também. E mais uma coisa. Uma tristeza muito jovem.
—”Medicina para quem?” Eu perguntei. Ele olhou para baixo. —”Para meu irmão.”
Não afrouxei o aperto, mas também não apertei mais forte. —”Qual é seu nome?” —”Danny.” —”Quantos anos você tem?” —”Vinte e um.” —”Bem, para vinte e um você é um pouco velho demais para roubar bicicletas de velhinhas.” —”Eu não sabia que era seu.” —”Isso não o torna melhor.”
Danny estava respirando rápido. Sua testa estava cheia de suor e seu joelho tremia contra a calçada. Seu chapéu havia caído para o lado e, sem ele, ele parecia menos um durão de rua. Mais como uma criança. Mais perdido.
Uma sirene soou ao longe. Ele ouviu e a cor desapareceu de seu rosto. —”Senhora, por favor. Se me prenderem, meu irmão ficará sozinho com minha mãe. Ela não pode cuidar dele. Ela trabalha limpando casas. Eu… Eu sou quem fica com o dinheiro.” —”Roubando.” —”Nem sempre.” —”Mas hoje, sim.” Ele mordeu o lábio. —”Hoje, sim.”
Minha neta se aproximou de mim lentamente. —”Vovó, você não precisa cuidar disso.” Olhei para ela pelo canto do olho. Ela tinha razão. Não precisei cuidar dos erros de ninguém. Eu só tive que pegar minha bicicleta, entregar o ladrão e ir para casa fazer café. Isso teria sido justo. A coisa simples. O que todos esperavam.
Mas então meus dedos roçaram no chaveiro. E a lembrança me puxou como uma corda. Robert, sentado na cozinha, com óculos na ponta do nariz, consertando a corrente da bicicleta enquanto me dizia: —“Betty, nem todas as pessoas más nasceram más. Às vezes eles simplesmente ficavam sem estrada.” Eu responderia: —“Bem, é melhor eles ficarem longe dos meus.” E ele ria. Ele sempre ria.
A viatura parou na beira do parque. Dois policiais saíram rápido. Um jovem, o outro já grisalho com a barriga de um homem que come donuts demais. —”O que aconteceu aqui?” perguntou o policial de cabelos grisalhos.
Várias vozes responderam ao mesmo tempo. —”O garoto roubou a bicicleta!” —”A moça o pegou!” —”Ela o dobrou como um pretzel!” —”Ele roubou mercadorias!”
O jovem policial olhou para Danny no chão e depois olhou para mim. —”Você o conteve?” —”Bem, não vou abraçá-lo.” O policial de cabelos grisalhos soltou uma risadinha que tentou esconder. —”Senhora, deixe-o ir, nós cuidaremos disso a partir daqui.”
Olhei para Danny. Ele não estava mais lutando. Ele chorava silenciosamente, com o queixo cerrado, como aqueles homens que acham que chorar os torna menos homens, quando na realidade o que os destrói é fingir que não sentem.
—”Antes de deixá-lo ir,” eu disse, “quero saber de onde veio esse chaveiro.” Peguei o chaveiro da mão dele e mostrei ao policial. —”Isso era do meu marido. Desapareceu há nove anos.”
O policial de cabelos grisalhos pegou, inspecionou e franziu a testa. —”Você tem certeza?” —”Mais certo do que eu do meu próprio nome.”
Danny falou sem levantar a cabeça. —”Minha mãe guardou. Ela tem isso há anos.” —”Por quê?” Eu perguntei. —”Porque… porque ela trabalhou com um homem chamado Robert.”
Senti o mundo inclinar-se. —”O que você disse?” Danny engoliu em seco. —”O nome da minha mãe é Theresa. Anos atrás, ela limpava em uma padaria. Ela diz que o dono a ajudou quando meu pai nos deixou. Ele lhe emprestava dinheiro, lhe dava pão, mantinha seu emprego seguro quando ninguém mais a contratava porque ela tinha um filho doente.”
Minha mão começou a tremer. Robert nunca me disse isso. Ou talvez ele tenha feito isso, à sua maneira, sem dar detalhes, como fez quando ajudou alguém e depois mudou de assunto para não ser agradecido.
—”Qual padaria?” Eu perguntei. —”Aquele na Avenida Lincoln. O Trigo Dourado.”
Meu coração disparou. Era do Robert. O parque desapareceu por um momento. Eu vi a vitrine amarela, as bandejas fumegantes, os rolinhos de canela frescos, Robert tirando farinha do avental. Eu o vi entregando pão para um garoto magro parado na porta. Eu o vi colocando notas dobradas em um envelope, dizendo que era para “uma tarefa.” Algumas noites, eu o vi chegando tarde em casa e me dizendo que estavam com falta de trabalho.
Não foi trabalho. Foi gentileza.
—”O nome do meu irmão é Leo”, continuou Danny. “Ele está doente desde pequeno. Rins. Neste momento ele precisa de remédios que o seguro não cobre totalmente. Consegui um emprego em uma oficina mecânica, mas me demitiram. Depois entreguei comida, mas minha scooter foi roubada. E… e comecei a fazer coisas estúpidas.” —”Como roubar bicicletas”, eu disse. —”Sim.” —”E vendendo memórias de outras pessoas.”
Danny fechou os olhos. —”Eu não ia vender o chaveiro. Eu carreguei porque… porque minha mãe diz Sr. Robert foi o único homem bom que conhecemos. Que quando não tínhamos nada para comer, ele nos dava pão e nunca fazia parecer caridade. Eu o carrego desde criança. Pensei que isso me dava sorte.”
Isso me deixou com raiva. Muito zangado. Mas já não era a mesma raiva. Porque uma coisa é confrontar um ladrão sem nome. E outra coisa é olhar para um garoto perturbado pelo desespero, carregando no bolso a lembrança do homem que você amava.
O jovem policial sacou as algemas. —”Tudo bem, garoto, levante-se.” Danny não se moveu. Ele olhou para mim. —”Senhorita Betty, me desculpe.”
Não sei por que ouvir meu nome da boca dele dói mais. —”Quem te disse meu nome?” —”Minha mãe. Ela também costumava falar de ti. Ela disse que o Sr. Robert tinha uma esposa feroz, mas boa. Que se algum dia te conhecermos, deveríamos trazer-te flores.”
Minha neta tocou meu ombro. —”Vovó…”
Fiquei olhando para Danny. Depois olhei para a minha bicicleta. A cesta solta. O assento remendado. A Virgem Maria. O pequeno sino triste. E eu entendi que Robert, teimoso como era, tinha me enviado um teste de onde quer que estivesse. Um daqueles testes que não podem ser resolvidos com um chute, mas com algo muito mais difícil.
Com misericórdia.
Deixei Danny ir. O jovem policial o puxou imediatamente e colocou uma algema em seu pulso. —”Senhora, precisamos que você venha registrar um boletim de ocorrência.” Danny abaixou a cabeça. —”Eu vou,” eu disse. Ele fechou os olhos, derrotado. —”Mas não pelo roubo da bicicleta.”
Todos se viraram para olhar para mim. O policial de cabelos grisalhos levantou uma sobrancelha. —”E depois?” —”Para algo mais importante.” Agarrei minha bicicleta pelo guidão. “Este jovem vai me levar até a mãe dele. Neste momento.”
—”Senhora, não podemos permitir—” —”Oficial,” Eu o interrompi, “você pode prendê-lo, preencher a papelada e prendê-lo por algumas horas. Ele vai sair pior mais tarde, porque as crianças famintas aprendem rápido com os criminosos experientes de lá. Ou você pode vir conosco, verificar se a história dele é verdadeira e me ajudar a decidir se estamos lidando com um criminoso… ou com uma criança que ainda pode ser endireitada.”
O jovem policial parecia sério. —”A lei é a lei.” —”E a vida é vida,” eu respondi. “Não estou dizendo que não deve haver consequências. Estou dizendo que quero ver a raiz antes de cortar a árvore.”
O policial de cabelos grisalhos me observou com uma calma estranha. —”Você era professor, não era?” —”Quarenta anos.” —”Isso fica evidente.” Ele fez um sinal para o jovem policial. “Vamos lá. Mas estamos seguindo logo atrás de você.”
Danny olhou para mim como se não entendesse. —”Você não vai me mandar para a cadeia?” —”Não cante vitória ainda, garoto. Eu mesmo posso acabar jogando você lá.”
Minha neta se aproximou, preocupada. —”Vovó, isso está fora de controle.” —”Não, querida. A parte importante apenas começou.”
Caminhamos três quarteirões até um antigo complexo de apartamentos, com tinta descascada e vasos feitos de baldes de tinta velhos. Os vizinhos espiaram quando viram a viatura. Uma garotinha parou de pular corda. Um cachorro magro nos seguiu, abanando o rabo como se também quisesse saber o final.
Danny estava quieto. Ele não parecia mais um ladrão. Ele parecia um filho. Subimos algumas escadas estreitas até o segundo andar. Ele bateu em uma porta azul com tinta lascada. —”Mãe,” ele disse em voz baixa. “Sou eu.”
A porta se abriu. Uma mulher magra, com os cabelos puxados para trás e olheiras profundas, apareceu na porta. Ao ver os policiais, ela levou a mão ao peito. —”Danny… o que você fez?”
Ninguém respondeu. Os olhos dela passaram dos policiais para a bicicleta e depois para mim. E então ela empalideceu. —”Senhorita Betty?”
Não sei o que doeu mais: que ela me reconheceu, ou que o fez com tanta vergonha. —”Theresa,” eu disse, embora não me lembrasse imediatamente do rosto dela.
Ela começou a chorar. —”Perdoe-me. Por favor, perdoe-me. Eu não sabia. Juro que não sabia que era sua bicicleta.” —”Mas você sabia que seu filho estava roubando.”
Ela baixou os olhos. Esse silêncio respondeu por ela. De dentro, ecoava uma tosse seca. Uma tosse jovem e profunda, como se estivesse raspando por dentro. —”É o Leo?” Eu perguntei. Theresa assentiu.
Entrei sem pedir permissão. O quarto era pequeno. Uma mesa, duas cadeiras, um fogão de duas bocas, uma cortina velha separando a área onde havia uma cama. Nele estava um menino de cerca de quinze anos, magro, de pele amarelada e olhos enormes. Ele tinha um cobertor puxado até o peito e um caderno aberto ao seu lado. Ele me viu e tentou se sentar. —”Boa tarde.”
Educado. Mesmo doente, ele era educado. Isso me destruiu completamente. —”Não se levante, querida.”
Ele olhou para Danny e depois para a polícia. —”O que aconteceu?” Danny não conseguiu responder. Theresa cobriu a boca. Coloquei o chaveiro do Robert na mesa. —”O que aconteceu é que seu irmão esqueceu tudo o que um bom homem fez por esta família.”
Danny levantou a cabeça como se eu tivesse lhe dado um tapa. —”Eu não esqueci.” —”Então você entendeu mal. Meu Robert ajudou as pessoas para que pudessem se reerguer. Não para que pudessem usar a memória dele como um amuleto da sorte enquanto machucavam os outros.”
O silêncio caiu pesado. Theresa chorou em silêncio. Leo agarrou seu caderno ao peito. —”Eu disse a ele para não roubar”, ele sussurrou. “Eu disse a ele que preferia apenas suportar a dor.”
Danny desabou. Ele caiu em uma cadeira, com a algema ainda pendurada em um pulso, e começou a chorar como uma criança. —”Eu não poderia te observar assim. Eu não consegui, Leo. De novo não. Mamãe chega em casa exausta, você está com dor, eu não tenho emprego… e todo mundo dizendo ‘volte amanhã,’ ‘não podemos ajudar,’ ‘deixe sua papelada.’ Era apenas a saída mais fácil.” —”A saída mais fácil quase nunca é limpa”, eu disse.
O policial de cabelos grisalhos respirou fundo. —”Senhora, precisamos prosseguir.”
Olhei para ele. Depois olhei para a Theresa, para o Leo, para o Danny. E pensei nos meus alunos. Aqueles que chegaram ao dojang com raiva nos punhos e medo nas costas. Aqueles que foram salvos não porque alguém simplesmente os perdoou, mas porque alguém os forçou a responder pelo que fizeram sem destruí-los completamente.
—”Danny,” Eu disse, “olhe para mim.” Ele levantou o rosto encharcado de lágrimas. —”Você roubou algo de mim que valia mais que dinheiro. Roubaste a minha independência, uma memória, e um presente do meu marido. Isso não é pago com um ‘desculpe.’” —”Eu sei.” —”Você vai devolver tudo o que roubou.” Ele assentiu rapidamente. —”Sim.” —”Você vai dizer aos policiais onde vendeu, com quem anda e quem mais está roubando no mercado de produtores.” Seus olhos se arregalaram. —”Eles vão me matar.” —”Seguir esse caminho vai te matar mais rápido.” —”Senhora…” —”E você vai trabalhar.” —”Onde? Ninguém vai me contratar—” —”Para mim.”
Minha neta quase engasgou. —”O que você quer dizer com “para você”?” —”O dojang está fechado, mas eu ainda sou dono do espaço. Há anos que acumula poeira. Precisa ser varrido, pintado e os vazamentos corrigidos. E precisa ser aberto novamente.”
Theresa olhou para mim, sem entender. —”Senhorita Betty…” —”Vou dar aulas gratuitas três tardes por semana. Para as crianças da vizinhança. Autodefesa. Disciplina. Respeito. E você, Danny, vai esfregar o chão antes de cada aula até que ele brilhe como um espelho. Você vai carregar os tapetes. Você vai consertar as bicicletas dos vizinhos’ com tudo o que aprendeu na oficina mecânica. E cada dólar legal que você ganha, uma parte vai para mim para pagar a fechadura, a cesta, o susto e a vergonha.”
Danny piscou. —”E os policiais?” Olhei para os oficiais. —”Vou apresentar um relatório. Vou deixar registrado o que aconteceu. Mas também vou afirmar que recuperei a bicicleta, que o jovem está a cooperar, e que solicito justiça restaurativa através do serviço comunitário, se as autoridades o permitirem.”
O jovem policial não parecia convencido. O de cabelos grisalhos fez isso. —”Podemos levá-lo à delegacia e explicar a situação ao promotor. A senhora tem o direito de apresentar queixa e também de solicitar um acordo restaurativo, se aplicável.”
—”E se ele não seguir adiante?” perguntou à minha neta. Inclinei-me para perto do Danny. —”Se você não seguir em frente, eu mesmo vou te arrastar para dentro. E acredite, garoto, corro devagar, mas vou te pegar.”
Leo soltou uma risadinha fraca. Foi o primeiro raio de luz naquela sala. Danny limpou o rosto com a manga. —”Eu farei isso.” —”Não me jure.” Apontei para o chaveiro. “Jure por Robert.”
Danny pegou o chaveiro com as duas mãos. Eles estavam tremendo. —”Eu juro para você, Sr. Roberto. Eu estraguei tudo. Mas eu vou consertar isso.”
Theresa se dobrou em lágrimas. Fui até ela e, sem pensar duas vezes, a abracei. No começo, ela estava rígida. Então ela se agarrou a mim como alguém que finalmente pode ficar exausto. —”Perdoe-me,” ela continuou repetindo. “Eu deveria tê-lo impedido.” —”Sim,” eu disse a ela. “Você deveria ter feito isso. Mas ainda há tempo.”
Aquela tarde não terminou no parque, mas na delegacia, entre cadeiras de plástico rígido, papelada lenta e funcionários que pareciam entediados até a morte. Danny fez sua declaração. Ele deu nomes. Endereços. Um esconderijo onde guardavam bicicletas roubadas antes de vendê-las online.
E foi aí que o caso explodiu. Porque minha bicicleta não era a única. Naquela mesma noite, usando as informações fornecidas por Danny, eles encontraram mais nove bicicletas em um terreno abandonado atrás de uma loja de pneus. Havia uma bicicleta de menina azul com adesivos de borboleta. Uma bicicleta de entrega. Duas bicicletas de montanha. Um vermelho com cadeirinha de bebê.
No dia seguinte, o vídeo da minha neta se tornou viral. Eu não queria que isso acontecesse. Mas aconteceu. “Vovó de Taekwondo recupera bicicleta roubada e quebra rede de roubo,” dizia uma manchete. Avó. De novo. Mas tudo bem. Pelo menos desta vez soou respeitoso.
As pessoas começaram a passar pela minha casa. Primeiro, uma senhora me agradecendo porque recuperaram a bicicleta do filho dela. Depois um entregador com uma caixa de doces. Então um homem que queria se inscrever nas aulas “se sua esposa deixasse” Até o dono da loja de ferragens local me deu tinta grátis para o dojang.
Minha neta, que a princípio disse que eu era louca, foi a primeira a fazer uma placa: ROBERT’S DOJANG — AUTODEFESA E CORAÇÕES FORTES
—”De Robert?” Perguntei a ela quando vi. Ela sorriu. —”Bem, ele começou a ajudar, então deixe-o continuar.” Eu não disse nada. Eu apenas a abracei.
Três semanas depois, o antigo lugar cheirava a suor, Pine-Sol e esperança novamente.
Danny apareceu na hora certa desde o primeiro dia. Com seu boné de beisebol, mas sem a corrente de ouro falsa. Ele varreu. Ele pintou. Ele consertou a porta. Ele consertou a Sra. A bicicleta da Mabel, a bicicleta do açougueiro e até a minha —embora eu tenha dito a ele para não consertar as cicatrizes na minha bicicleta, porque essas também eram lembranças.
Leo começou a acompanhá-lo quando estava com vontade. Ele se sentava em uma cadeira perto da parede, com seu caderno, anotando os nomes das crianças. Às vezes ele tocava a campainha para sinalizar a troca de exercícios. O pequeno sino fora do tom da minha bicicleta.
Theresa trouxe chá gelado às sextas-feiras. Os policiais apareciam de vez em quando. O de cabelos grisalhos, o policial Miller, acabou inscrevendo sua neta. —”Então ela não deixa ninguém empurrá-la”, ele me disse. —”E então ela também não empurra ninguém”, respondi. Porque essa foi a primeira coisa que ensinei. Você não aprende a socar só para se sentir grande. Você aprende a se defender para poder andar sem medo. E também saber quando não atacar.
Danny demorou um pouco para manter a cabeça erguida. Nos primeiros dias ele andava por aí como se todos estivessem apontando para ele. E sim, alguns o fizeram. Os bairros têm memórias longas quando querem e curtas quando lhes convém. Mas ele continuou aparecendo.
Uma tarde, depois da aula, encontrei-o parado em frente à foto de Robert que eu havia pendurado na entrada. Na foto, ele era jovem, com o avental coberto de farinha, exibindo aquele sorriso de bom homem do qual nunca se gabava.
Danny tinha o chaveiro na mão. —”Você acha que ele teria me perdoado?” ele perguntou. Fiquei ao lado dele. —”Robert teria.” —”E você?”
Tirei um momento para responder. Porque o perdão não é um cobertor que você simplesmente joga sobre si mesmo e pronto. O perdão está costurado. Ponto por ponto. Com ações.
—”Estou aprendendo,” Eu disse a ele. Danny assentiu. —”Eu também.”
Dois meses se passaram. O acordo estava sendo honrado. Danny entregou uma parte do que fez com os reparos. Ele ajudou a recuperar outras bicicletas. Ele cortou relações com a tripulação, o que lhe causou problemas. Ele não se tornou um santo —porque santos só existem em cartões de oração—, mas começou a se tornar alguém que conseguia se olhar no espelho sem baixar os olhos.
Um domingo, fui ao mercado de produtores rurais de bicicleta. O mesmo. Com a cesta solta, o assento remendado, a Virgem Maria arranhada e uma corrente nova que Danny colocou “então ninguém a pega dessa vez, senhora” Comprei tomate, cebola, queijo e coentro.
Ao sair, olhei para o poste onde o haviam roubado. Eu não sentia mais raiva. Senti outra coisa. Como se o espaço vazio daquele dia tivesse sido preenchido com algo que eu não esperava. Uma história. Uma dolorosa, sim. Mas um vivo.
Quando cheguei ao dojang, as crianças já estavam alinhadas. Minha neta estava na frente, tentando colocá-los em ordem. Danny estava montando os tapetes. Leo tocou a campainha. Apito. Fora de campo. Perfeito.
Todos ficaram quietos quando entrei. —”Mestre Betty,” Danny disse, em pé, “pronto.”
Mestre. Não é a vovó. Não senhora. Mestre.
Senti que Robert, onde quer que estivesse, ria baixinho consigo mesmo. Deixei minha bengala perto da porta. A mesma bengala que eu não precisava, mas agora guardada como lembrança do dia, uma bicicleta velha me devolveu algo muito maior que um objeto.
Fiquei na frente dos alunos. Crianças, mães, um policial com barriga, uma senhora do mercado, um menino que tinha sido ladrão e agora estava aprendendo a ficar de pé.
—”Tudo bem,” eu disse. “Hoje vamos praticar o equilíbrio.” Uma garotinha levantou a mão. —”Para não cairmos, Mestre?” Eu sorri. —”Para isso também. Mas principalmente, para aprender que quando a vida te empurra, você nem sempre tem que contra-atacar. Às vezes basta firmar os pés… e decidir quem você quer ser.”
Danny olhou para baixo, mas desta vez não por vergonha. Por respeito. Dei um passo à frente. O mesmo passo de sempre. Empresa. Preciso.
E enquanto todos seguiam meu exemplo, ouvi minha bicicleta lá fora encostada na parede, com seu pequeno sino mal tocando ao vento. Apito. Como se Robert estivesse me dizendo: —“Muito bem, Betty.”
E sem me virar, respondi-lhe em silêncio: —“Eu sei, velhote. Mas não fique muito animado. Ele ainda precisa aprender a varrer as curvas para a direita.”