A Bicicleta do Mestre: Parte II – RECORD

A Bicicleta do Mestre: Parte II

Não era uma arma. Foi pior. Era um chaveiro.

Um velho chaveiro de couro preto, com uma placa de metal arranhada onde ainda era possível distinguir uma letra: R. Senti o ar ficar preso no meu peito. Porque aquele chaveiro também era meu. Não é meu a partir de agora. O meu de antes. Há muito tempo atrás. Do meu marido. De Robert.

O mesmo chaveiro que ele carregava quando ainda caminhava comigo pela feira, quando ele ainda me dizia, “Betty, não compre tantas pimentas ou você vai reclamar depois,” quando ele ainda ria com aquela tosse seca que teve por tantos anos trabalhando na padaria.

Aquele chaveiro desapareceu no dia do seu velório. Pensei que um convidado o tivesse levado por engano. Ou que tinha caído entre as flores. Ou que, em meio à dor, eu mesmo o perdi. Mas lá estava. Na mão suada de um garoto que tinha acabado de roubar minha bicicleta.

Por um segundo, meu aperto diminuiu. E o ladrão sentiu isso. Ele puxou o pulso em desespero, tentando se libertar, mas reagi antes que ele pudesse dar um passo. Torci seu braço atrás das costas, coloquei-o de joelhos e coloquei minha mão na nuca dele —sem machucá-lo, mas deixando bem claro que mover-se era uma má ideia.

—”Onde você conseguiu isso?” Eu perguntei. Minha voz não soava mais raivosa. Parecia frio.

O garoto engoliu em seco. —”Não sei do que você está falando.” Apertei-lhe o pulso um pouco mais forte. —”Olhe atentamente para mim, garoto. Aos oitenta e cinco anos, uma mulher não tem tempo para mentiras baratas.”

Minha neta se aproximou, ainda gravando, mas quando viu meu rosto, abaixou o telefone. —”Vovó… o que aconteceu?” Eu não respondi. Meus olhos estavam grudados no chaveiro. Tinha uma mancha escura num canto. Uma mancha que eu conhecia bem. Robert fez isso com café uma manhã, quando estava correndo porque estava atrasado para abrir a padaria. Ele nunca quis substituí-lo.

—”Aquele chaveiro pertencia ao meu marido”, eu disse lentamente. “E meu marido morreu há nove anos.”

A multidão parou de rir. O parque parecia estranho. Como quando uma nuvem de repente cobre o sol e até os pombos parecem entender que algo mudou.

O ladrão ficou quieto. Muito quieto. —”Eu… eu comprei,” ele murmurou. —”De quem?” —”Um cara.” —”Que cara?” —”Eu não sei.”

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