A voz de Daniel ao telefone não tinha mais a força dos trinta golpes da noite anterior. Parecia agudo, quebradiço, como vidro quebrando sob o peso de uma verdade que você não pode mais ignorar.
Acomodei-me na poltrona do meu escritório, de frente para uma grande janela com vista para uma das rodovias que ajudei a projetar há vinte anos. Limpei meu lábio dividido com um lenço e falei com a calma deliberada de alguém que sabe que segura todas as cartas do baralho.
“Não é brincadeira, Daniel. É uma transação. Vendi a Mastiff Holdings para um fundo de investimento asiático. A venda incluiu todos os ativos físicos. Isso inclui a casa onde você acorda, o jardim onde Sophia toma sol e até mesmo o ar que você respira naquele armário cheio de ternos pelos quais você não pagou.”
“Você não pode fazer isso!” ele gritou e, ao fundo, ouvi os soluços histéricos de Sophia. “Nós moramos aqui! Esta é a nossa casa! Você nos deu!”
“Eu te dei esse uso, Daniel. Nunca a propriedade. Ontem você me mostrou que não sabe o significado de respeito, então decidi que você não merece abrigo. Os novos proprietários não querem inquilinos. Eles têm planos para uma reforma total. Você tem exatamente duas horas para conseguir o que cabe no seu carro. O restante pertence legalmente ao inventário do imóvel vendido.”
Desliguei.
Às 14h, parei em frente à mansão. Daniel estava na calçada, cercado por malas abertas e sacos de lixo. Sophia estava chorando, sentada em uma mala de grife, observando horrorizada enquanto os carregadores retiravam os móveis caros pelos quais eu havia pago.
Daniel caminhou em direção ao meu carro, com os olhos vermelhos, mas dessa vez ele não levantou a mão. Ele viu a viatura policial que eu havia solicitado para “supervisionar a transferência de propriedade” e parou no meio do caminho.
“Por que, pai?” ele perguntou, sua voz um sussurro. “Foi só uma briga… Eu estava bêbado… Foi o estresse…”
“Não, Daniel,” respondi, rolando pela janela apenas alguns centímetros. “Não foi uma briga. Foi uma revelação. Você me bateu trinta vezes. Eu os contei. Cada golpe foi um ano da minha vida que você jogou no lixo. Sua ingratidão me machucou mais do que seu punho.”
“Não temos para onde ir!” Sophia gritou por trás dele. “Todas as nossas contas estão vinculadas à administração da casa!”