Depois de vinte anos na prisão, ninguém esperava por Elvira na saída. Sem flores, sem abraços, nem mesmo um olhar familiar em meio à multidão apressada da cidade. O ar fresco parecia estranho, quase violento, como se o mundo tivesse continuado a girar sem ela, apagando qualquer vestígio de sua existência.

Elvira vagou sem rumo, carregando apenas uma pequena bolsa de pano. Ela aprendeu a não esperar nada, a sobreviver com o mínimo necessário. Mas essa liberdade, tão almejada ao longo dos anos, parecia agora um imenso vazio.

A noite caiu rapidamente. Sem dinheiro suficiente ou para onde ir, ela acabou deixando a cidade, guiada por um instinto antigo, como se algo a chamasse de longe. A estrada ficava cada vez mais estreita, cercada por árvores murchas e colinas esquecidas.

Depois de horas de caminhada, ele chegou a um terreno estranho. A terra parecia perturbada, como se alguém tivesse tentado esconder algo debaixo dela. No meio desta paisagem, destacava-se uma estrutura pouco visível: o telhado de uma casa enterrada.

Elvira parou.

“Não pode ser…” ele murmurou.

A curiosidade superou o medo. Ele se aproximou lentamente e começou a remover a terra com as mãos. Aos poucos, ele descobriu uma velha porta de madeira, coberta de raízes.

Ele empurrou.

A porta cedeu com um rangido profundo, como se estivesse acordando de um longo sono.

Lá dentro, o ar era frio, mas não deserto. Havia móveis cobertos de poeira, mas intocados. Uma mesa, uma cadeira, uma cama… e mais alguma coisa. Um sentimento.

Como se alguém estivesse esperando.

Elvira fechou a porta atrás dela. Ela não tinha outra escolha. Aquela casa enterrada seria o seu refúgio.

Naquela noite ele dormiu profundamente pela primeira vez em anos.

Mas ela não estava sozinha.

Nas primeiras horas da manhã, um barulho a acordou. Passos. Lento. Arrastando.

Ele sentou-se de repente.

“Tem alguém aí?” ele perguntou, com a voz tremendo.

Silêncio.

Ele se levantou e andou pela casa. Nada. Apenas sombras.

Ele pensou que tinha sido um sonho… até que viu algo que não estava lá antes.

Sobre a mesa havia uma xícara.

E estava quente.

Elvira deu um passo para trás.

—Não… Não estou sozinho aqui…

A partir desse momento, coisas estranhas começaram a acontecer. Objetos que mudavam de lugar, sussurros quase inaudíveis nas paredes e sonhos… sonhos que não pareciam ser dela.

Sonhei com uma garotinha.

Uma garotinha corria pela mesma casa, rindo.

Uma garota que um dia parou de rir.

No terceiro dia, Elvira encontrou um alçapão no chão, escondido sob um tapete velho. Ela hesitou antes de abri-lo, mas a necessidade de respostas era mais forte.

Ele caiu.

O porão estava completamente intocado, como se o tempo tivesse parado ali. Havia desenhos nas paredes. Desenhos infantis.

E em todas elas apareceu a mesma figura: uma mulher.

Fechado.

Elvira sentiu um calafrio.

—O que aconteceu aqui…?

Num canto, encontrou uma caixa. Lá dentro, havia cartas. Dezenas deles.

Ela os leu um por um.

Eles pertenciam a uma garota chamada Lucia.

Cartas endereçadas à sua mãe.

Mas nunca enviado.

“Mãe, estou com medo.”

“Mãe, ele diz que eu não deveria sair.”

“Mãe, prometo me comportar se você voltar.”

Elvira sentiu um nó na garganta.

Então ele entendeu.

A casa não foi abandonada.

Ela tinha sido enterrada.

De propósito.

E a menina…

Ele nunca foi embora.

Um barulho a interrompeu.

Mais forte desta vez.

Passos, novamente.

Mas dessa vez eles estavam vindo de cima.

Elvira correu escada acima.

A porta estava aberta.

E no limiar…

Havia uma figura.

Uma menina.

Pálido. Imóvel. Olhando para ela.

—Lucía…? —Elvira sussurrou, sem saber por que disse esse nome.

A menina não respondeu.

Mas ele levantou lentamente o braço… e apontou para a floresta.

Então ele desapareceu.

Elvira não hesitou. Ela fugiu na direção indicada.

A floresta era densa e escura. Mas algo a guiou.

Depois de alguns minutos, ele encontrou algo enterrado entre as raízes de uma árvore.

Um peito.

Ele abriu-o.

Lá dentro, havia ossos pequenos.

E um colar.

Elvira o reconheceu.

Eu tinha visto isso nos desenhos.

Lúcia.

Lágrimas escorriam pelo seu rosto incontrolavelmente.

—Sinto muito… Sinto muito mesmo…

De repente, o ar mudou.

O vento soprou forte.

E a menina apareceu na frente dela.

Mas ele não parecia mais triste.

Ele olhou para ela calmamente.

Como se alguém finalmente a tivesse ouvido.

—Obrigada… —sussurrou uma voz que parecia vir do nada.

E então…

Ele desapareceu.

O silêncio retornou.

Elvira permaneceu ali, ajoelhada, com o peito nas mãos.

Pela primeira vez em vinte anos…

Ele sentiu paz.

No dia seguinte, ele voltou para casa.

Mas algo havia mudado.

O sentimento não era mais pesado.

A casa… não estava mais enterrada.

Como se eu nunca tivesse estado lá.

Elvira decidiu ficar.

Não porque eu não tinha para onde ir.

Mas porque, pela primeira vez, ele havia encontrado um propósito.

Ele enterrou os restos mortais de Lúcia cuidadosamente, marcando o local com uma pequena cruz de madeira.

Todos os dias ela limpava a casa, reconstruindo-a aos poucos.

E todas as noites ela falava em voz baixa, como se alguém ainda pudesse ouvi-la.

Meses se passaram.

Os moradores da cidade começaram a perceber que a velha casa na floresta estava voltando à vida.

Alguns disseram que ela estava enfeitiçada.

Outros disseram que uma velha louca morava lá.

Mas ninguém sabia a verdade.

Uma tarde, uma rapariga da aldeia perdeu-se na floresta.

Eles a procuraram por horas.

Até que alguém se lembrou da casa.

Eles foram lá.

E encontraram a rapariga sã e salva.

Sentado ao lado de Elvira.

“Como você chegou aqui?” eles perguntaram.

A menina respondeu com algo que ninguém conseguiu explicar:

—Uma garotinha me trouxe aqui. Ela disse que eu estaria seguro aqui.

Elvira não disse nada.

Ele apenas sorriu.

Naquela noite, enquanto o vento sussurrava entre as árvores, ele pensou ter ouvido uma risada.

Suave.

Distante.

Mas feliz.

E pela primeira vez em muito tempo, Elvira não sentiu medo.

Porque ele entendeu alguma coisa.

Algumas casas não escondem segredos para causar danos.

Alguns… só esperam ser ouvidos.

E algumas almas… não descansam até que alguém lhes ofereça um lar.

Mesmo que seja tarde demais.

Ou talvez…

Bem a tempo.

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