PARTE 2
O alarme estridente ecoou pelo crematório inteiro.
Por um segundo, ninguém se moveu.
O funcionário deu um passo para trás.
Minha mãe levou as mãos à boca.
E Brandon…
Brandon correu.
Ele se lançou sobre a maca como um animal encurralado.
— Desliguem isso! — gritou. — Desliguem agora!
Mas já era tarde.
A enfermeira empurrou-o para longe.
— Abram o saco! — ordenou.
Dois funcionários seguraram Brandon enquanto eu puxava o zíper com as mãos trêmulas.
O tecido preto se abriu lentamente.
Eu estava preparada para ver o corpo da minha irmã.
Mas não foi isso que encontrei.
Houve um silêncio absoluto.
Então alguém soltou um grito.
Era minha mãe.
Dentro do saco mortuário estava Daniela.
Viva.
Seu rosto estava coberto por hematomas.
Os pulsos tinham marcas profundas de contenção.
Uma máscara de oxigênio improvisada estava presa ao seu rosto.
Ela respirava.
Fraco.
Mas respirava.
Por um instante, meu cérebro se recusou a acreditar no que meus olhos viam.
— Meu Deus… — sussurrei.
A enfermeira caiu de joelhos ao lado dela.
— Ela ainda tem pulso!
Os funcionários correram para chamar socorro.
Enquanto isso, Brandon tentava se libertar.
— Vocês não entendem! — berrava. — Ela devia estar morta!
As palavras saíram antes que ele pudesse impedir.
Todos congelaram.
Inclusive os seguranças.
Ele percebeu o que havia dito.
Mas já era tarde demais.
Os olhos da enfermeira se encheram de lágrimas.
— Eu sabia — murmurou.
Ela virou-se para mim.
— Tentei impedir isso desde a manhã.
— O que aconteceu? — perguntei.
A jovem respirou fundo.
— Sua irmã sofreu complicações durante o parto. Houve uma hemorragia grave. Os médicos conseguiram estabilizá-la, mas ela entrou em coma induzido.
Meu coração disparou.
— Então ela nunca morreu?
— Não.
A enfermeira balançou a cabeça.
— Em nenhum momento.
Minha mãe começou a chorar.
Eu senti minhas pernas enfraquecerem.
Horas de desespero.
Horas acreditando que Daniela estava morta.
Tudo era mentira.
— E o bebê? — perguntei.
A expressão da enfermeira mudou.
— O bebê nasceu vivo.
Brandon fechou os olhos.
Como alguém que acabara de ouvir sua sentença.
— Onde ele está? — perguntei.
A enfermeira apontou para o prontuário.
— Foi isso que tentei descobrir.
Ela abriu algumas páginas.
— Os registros desapareceram do sistema.
— Desapareceram?
— Alguém apagou tudo.
Minha mãe começou a tremer novamente.
— Quem faria isso?
Ninguém respondeu.
Porque todos já sabíamos.
Brandon.
Nesse momento, o som de sirenes se aproximou.
Paramédicos invadiram o prédio.
Daniela foi retirada da maca e colocada em uma ambulância.
Enquanto os médicos trabalhavam, um dos seguranças segurava Brandon contra a parede.
Mas ele não parecia assustado.
Parecia desesperado.
Como se ainda estivesse preocupado com algo muito pior.
Algo que ainda não tínhamos descoberto.
Quando a polícia chegou, a enfermeira entregou o bilhete encontrado no cobertor.
O investigador leu em silêncio.
Depois ergueu os olhos.
— Sala de roupa suja?
Ela assentiu.
— Foi o que ela escreveu.
Sem perder tempo, os policiais seguiram para o Hospital Central.
Eu fui junto.
Durante todo o trajeto, uma única pergunta martelava minha mente.
Por que esconder um recém-nascido?
Quando chegamos ao hospital, a ala obstétrica estava um caos.
Médicos correndo.
Administradores nervosos.
Computadores sendo bloqueados.
E vários funcionários evitando contato visual.
Algo muito maior estava acontecendo.
O investigador exigiu acesso imediato à lavanderia.
Uma supervisora tentou impedir.
— Isso é uma área restrita.
— Afaste-se — respondeu ele.
Descemos até o subsolo.
O cheiro de detergente e roupas úmidas dominava o ambiente.
Máquinas industriais rugiam ao redor.
Os policiais começaram a procurar.
Minuto após minuto.
Nada.
Então um dos agentes chamou:
— Aqui!
Corremos até ele.
Atrás de uma fileira de carrinhos de lençóis havia uma porta metálica.
Pequena.
Escondida.
Trancada por fora.
O investigador arrombou a fechadura.
A porta se abriu.
E, do interior escuro, veio um som.
Um choro.
Fraco.
Mas inconfundível.
Minha mãe desabou.
Eu senti as lágrimas escorrerem antes mesmo de perceber.
O bebê estava vivo.
Mas quando a luz finalmente iluminou o pequeno compartimento, percebemos que ele não estava sozinho.
Havia outra criança ali.
Outro recém-nascido.
Com uma pulseira hospitalar diferente.
E, ao lado dos dois berços improvisados, encontramos uma pasta contendo dezenas de certidões de nascimento alteradas.
O investigador empalideceu.
— Meu Deus…
Aquilo não era apenas sobre Daniela.
Nem apenas sobre Brandon.
Era algo muito maior.
Algo que vinha acontecendo havia anos.
E o nome escrito na primeira página da pasta fez meu sangue gelar.
Porque não era o nome de Brandon.
Era o nome do diretor do hospital.
Continua na Parte 3…