PARTE 2
O salão inteiro ficou em silêncio.
Nem mesmo a banda continuou tocando.
As palavras da minha mãe pairaram no ar como uma bomba prestes a explodir.
— Que pena, Eleanor… esse apartamento não pertence mais à Sophia.
Eleanor piscou várias vezes.
O sorriso congelou em seu rosto.
— Desculpe? — perguntou.
Minha mãe entregou o microfone a uma das organizadoras do evento e retirou um envelope da bolsa.
Jason empalideceu.
Foi a primeira vez naquela noite que o vi realmente nervoso.
— O apartamento foi transferido legalmente para o meu nome há três meses — disse minha mãe calmamente. — Portanto, ninguém vai morar lá sem a minha autorização.
Alguns convidados começaram a cochichar.
Outros pegaram discretamente os celulares.
A humilhação que Eleanor havia planejado para mim acabava de voltar para ela.
— Isso é ridículo! — ela gritou. — Sophia nunca faria isso!
— Fez, sim.
Minha mãe ergueu os documentos.
— E eu tenho tudo registrado.
Olhei para Jason.
Ele parecia incapaz de esconder o choque.
— Você sabia? — perguntei à minha mãe.
Ela assentiu.
— Eu suspeitava.
— Suspeitava de quê?
Minha mãe respirou fundo.
— De que eles não estavam interessados apenas em você.
O rosto de Eleanor ficou vermelho.
— Como ousa?
— Porque não é a primeira vez que vejo isso acontecer.
Meu pai levantou-se lentamente da mesa.
Os convidados observavam cada segundo.
— Explique-se — disse ele.
Minha mãe olhou diretamente para Jason.
— Dois meses atrás, encontrei por acaso uma conversa entre Jason e a mãe dele.
Meu coração acelerou.
— Que conversa?
Jason imediatamente avançou um passo.
— Isso é mentira.
Mas ninguém mais acreditava nele.
Minha mãe abriu o envelope.
De dentro dele retirou várias folhas impressas.
— Conversas por mensagem.
Ela entregou uma delas ao meu pai.
Outra para mim.
Comecei a ler.
E senti o estômago embrulhar.
“Depois do casamento, ela vai concordar.”
“Se não concordar, vendemos a ideia de juntar a família.”
“Uma vez morando na minha casa, o apartamento fica livre.”
“Você merece aquele lugar depois de tudo que fez por mim, mãe.”
Minhas mãos começaram a tremer.
Levantei os olhos.
Jason já não tentava sorrir.
— Sophia, eu posso explicar.
— Explicar o quê?
Minha voz saiu mais alta do que imaginei.
— Explicar como você planejou minha vida pelas minhas costas?
Ele tentou segurar meu braço.
Eu me afastei.
O salão inteiro observava.
— Você está exagerando.
— Estou?
Mostrei uma das mensagens.
— Então isso não foi escrito por você?
Jason não respondeu.
O silêncio dele foi suficiente.
Eleanor perdeu completamente o controle.
— Depois de tudo que meu filho fez por você!
— Por mim? — repeti.
Ela apontou para mim com raiva.
— Você tinha dinheiro. Tinha imóvel. Tinha contatos. Claro que ele queria uma vida melhor!
As palavras escaparam antes que ela pudesse se conter.
O salão explodiu em murmúrios.
Até Jason fechou os olhos.
Porque sua mãe acabara de admitir tudo.
Minha mãe apenas cruzou os braços.
— Obrigada, Eleanor.
— Pelo quê?
— Por finalmente dizer a verdade.
Durante alguns segundos ninguém falou.
Então meu pai se aproximou de Jason.
Muito calmo.
Calmo demais.
— Você ama minha filha?
Jason demorou para responder.
Tempo demais.
Meu pai assentiu lentamente.
Como se tivesse recebido a resposta.
— Entendi.
Foi nesse instante que algo dentro de mim se quebrou.
Não com raiva.
Não com tristeza.
Mas com clareza.
Percebi que o homem com quem eu acabara de me casar nunca esteve apaixonado pela minha alma.
Ele estava apaixonado pela vida que imaginava ter ao meu lado.
Pela cobertura.
Pelos investimentos.
Pelo status.
Pelo apartamento.
E agora que tudo isso havia desaparecido, ele parecia um homem que acabara de perder uma aposta milionária.
— O casamento acabou.
Minha própria voz me surpreendeu.
Jason arregalou os olhos.
— Sophia…
— Acabou.
— Você não pode tomar uma decisão dessas agora.
— Posso.
Retirei a aliança.
O metal parecia pesado.
Muito mais pesado do que algumas gramas de ouro deveriam ser.
Coloquei-a sobre a mesa.
Na frente de todos.
— Você não se casou comigo — disse. — Você se casou com um imóvel.
Eleanor começou a gritar.
Jason tentou me seguir.
Mas meu pai ficou entre nós.
Pela primeira vez naquela noite, senti-me segura.
Minha mãe aproximou-se e segurou minha mão.
Os mesmos dedos frios de três meses atrás.
Só que agora eu finalmente entendia.
Ela não estava tentando controlar minha vida.
Estava tentando protegê-la.
Enquanto saíamos do salão, ouvi alguém perguntar a Eleanor:
— Então a senhora realmente achava que ia morar no apartamento?
E a resposta dela foi tão sincera quanto vergonhosa:
— Claro que sim.
Naquele momento, até os convidados que ainda tinham dúvidas entenderam exatamente o que havia acontecido.
Mas eu ainda não sabia que a verdadeira surpresa viria três dias depois, quando o advogado da minha mãe descobriria algo escondido nos documentos financeiros de Jason.
Algo que tornaria aquela noite apenas o começo do escândalo.
Continua na Parte 3…