“Abra a mensagem”, disse o Sr. Arthur, com os olhos fixos no retrovisor. Suas mãos calejadas apertavam o volante com uma firmeza que me transmitia uma segurança que eu não sentia há dias.
Olhei para a tela iluminada. A nova mensagem continha apenas uma coordenada geográfica e uma frase curta:
“O verdadeiro testamento está onde nosso amor começou. Não olhe para trás.”
Onde nosso amor começou. Minha mente viajou trinta anos no passado, longe do luxo estéril de Beverly Hills. Robert e eu não nascemos ricos. Antes do império imobiliário, éramos apenas dois jovens universitários que dividiam um estúdio minúsculo e úmido perto do cais de Santa Mônica. Era ali. Tinha que ser ali.
— Sr. Arthur — sussurrei, a voz embargada —, para o píer. Para a antiga cabana de barcos.
O velho motorista apenas assentiu com a cabeça. O silêncio no carro era denso, quebrado apenas pelo som da chuva fina que começava a cair, batendo contra o para-brisa como pequenas agulhas.
Olhei para as minhas mãos. Em uma, eu segurava o revólver frio de Robert. Na outra, o pequeno frasco vazio que encontrara na cozinha. Aproximei o vidro do nariz novamente. Aquele cheiro amargo… digitalina. Robert sofria do coração, sim, mas aquela substância em alta dose causaria um ataque cardíaco fulminante sem deixar rastros óbvios para um médico legista com pressa. Ou subornado.
Charles e Hector. Meus próprios filhos. As crianças que embalei no colo, cujos joelhos ralados limpei, haviam se transformado em monstros moldados pela ganância.
O carro deslizou pelas ruas escuras até que o cheiro de sal escorresse pelas frestas das janelas. O Sr. Arthur estacionou a dois quarteirões do antigo píer de madeira, num beco sombrio onde os faróis dos carros de polícia não costumavam alcançar.
— Eu vou com a senhora, Sra. Teresa — disse ele, desligando o motor.
— Não, Arthur. Fique aqui e vigie. Se eles me rastrearam pelo celular, não temos muito tempo.
Saí do carro. O vento frio do Pacífico açoitou meu rosto, desalinhando o véu preto que eu ainda usava. Caminhei apressada pelas tábuas de madeira rangentes do cais. A antiga cabana de barcos que Robert comprara no nosso primeiro ano de casados ainda estava lá, abandonada e condenada pela prefeitura, mas intacta em sua estrutura.
Forcei a porta de madeira apodrecida. Ela cedeu com um rangido doloroso. O interior cheirava a maresia, mofo e redes antigas. Peguei o celular para usar a lanterna, mas antes que pudesse acendê-la, uma nova mensagem chegou:
“Sob a terceira tábua à esquerda da antiga escrivaninha. Pegue o documento e saia. Eles descobriram o Arthur.”
Meu coração saltou no peito. Olhei para trás, em direção à rua, mas a escuridão engolia tudo. Corri até os restos da escrivaninha de pinho. Contei três tábuas. Com a ponta do cano do revólver, forcei a madeira úmida. Ela cedeu facilmente.
Lá dentro, envolto em plástico grosso para protegê-lo da umidade do mar, estava um envelope azul. O verdadeiro testamento. Junto a ele, havia um segundo pen drive e uma cópia de uma apólice de seguro de vida de cinquenta milhões de dólares — que só seria paga se eu fosse declarada legalmente incapaz ou se falecesse logo após meu marido.
— Então esse era o plano — murmurei para mim mesma, as lágrimas queimando meus olhos. — Eles iam me internar… ou me matar.
— Um plano brilhante, não acha, mamãe?
A voz ecoou das sombras da entrada da cabana. Uma silhueta alta e esguia bloqueou a pouca luz da lua que entrava pela porta. Era Charles. Ele segurava um guarda-chuva elegantemente fechado em uma das mãos, e na outra, o celular com o aplicativo de rastreamento de localização aberto.
Logo atrás dele, Hector surgiu, arrastando o Sr. Arthur pelo colarinho. O velho motorista tinha um corte na testa e respirava com dificuldade.
— Você sempre foi muito sentimental, Teresa — disse Hector, jogando o Sr. Arthur no chão com desprezo. — Vir até aqui? Sério? O papai sabia exatamente como manipular você, mesmo estando morto.
— Morto? — perguntei, recuando até que minhas costas batessem na parede da cabana. Minha mão, escondida sob o casaco, apertava o revólver. — Se ele está morto, quem está me mandando essas mensagens?
Charles soltou uma risada fria, um som desprovido de qualquer humanidade.
— O velho Robert era paranoico, mãe. Ele programou um servidor privado para enviar essas mensagens caso o coração dele parasse por mais de quarenta e oito horas e certas palavras-chave não fossem digitadas no computador dele. Ele achou que estava sendo esperto. Mas o que ele realmente fez foi nos guiar direto até o que queríamos: o testamento original que ele se recusava a mudar.
Minhas pernas vacilaram. Robert estava realmente morto. O homem que eu amara por quatro décadas tinha partido, e aquelas mensagens eram apenas o eco de sua última e desesperada tentativa de me salvar do túmulo.
— Entregue o envelope, mãe — disse Charles, dando um passo à frente, estendendo a mão com um sorriso cínico. — O Dr. Kaufman está nos esperando no carro. Ele já assinou o laudo de surto psicótico. Você passou a noite do funeral do seu marido vagando por um píer abandonado, armada e delirando que ele estava vivo. Quem um juiz vai acreditar? Em dois filhos preocupados ou em uma viúva idosa e histérica?
Olhei para Hector, depois para Charles. A dor da perda sumiu, substituída por um ódio puro e avassalador.
— Vocês o mataram — disse eu, a voz agora firme, fria como a água do oceano abaixo de nós. — Vocês usaram digitalina no café dele.
Charles e Hector se entreolharam por um segundo. Charles deu de ombros.
— Ele ia nos deserdar, Teresa. Ia deixar tudo para uma fundação de caridade e para você. Nós trabalhamos a vida inteira naquela empresa. Não íamos deixar um velho moribundo arruinar nosso futuro. Agora, chega de conversa. Dê-me o envelope.
— Não — respondi.
Hector avançou irritado.
— Velha estúpida! — gritou ele, avançando para me agarrar.
Eu não pensei. Tirei a mão de sob o casaco e apontei o revólver. Disparei.
O som do tiro dentro da cabana de madeira foi ensurdecedor. A bala atingiu o ombro de Hector, que cambaleou para trás com um grito de dor, caindo sobre as redes velhas. Charles arregalou os olhos, congelado pelo choque. Ele nunca imaginou que a mãe submissa e silenciosa seria capaz de puxar um gatilho.
— Arthur! — gritei.
O velho motorista, reunindo suas últimas forças, rastejou até as pernas de Charles e o puxou pelo tornozelo. Charles perdeu o equilíbrio e caiu pesadamente contra a escrivaninha de pinho.
Aproveitei os segundos de distração. Peguei o envelope azul, enfiei o pen drive no bolso e corri em direção à saída, passando por cima de Charles, que tentava se levantar.
— Teresa! Você não vai longe! — gritou Charles, sua voz ecoando com fúria enquanto eu ganhava a noite escura.
Corri como nunca havia corrido em toda a minha vida. A chuva agora caía torrencialmente, lavando as lágrimas do meu rosto. Eu não voltei para o carro do Sr. Arthur; os capangas deles ou o próprio médico podiam estar vigiando. Em vez disso, misturei-me à escuridão das ruelas de Santa Mônica, correndo em direção à avenida principal, onde as luzes dos táxis e dos letreiros de neon ofereciam um refúgio temporário.
Entrei no primeiro táxi que vi parado em um sinal vermelho.
— Para onde, senhora? — perguntou o motorista, assustado com a minha aparência: uma mulher de preto, encharcada e respirando sofregamente.
— Para a delegacia central de polícia — respondi, limpando a água do rosto.
Sentei-me no banco de trás e tirei o celular do bolso. Ele estava molhado, mas a tela ainda acendia. Para minha surpresa, havia uma nova notificação de mensagem. Minhas mãos tremeram tanto que quase derrubei o aparelho.
Não era possível. Charles dissera que as mensagens eram programadas. Mas a programação deveria ter acabado.
Abri o aplicativo.
“Muito bem, Teresita. Eu sabia que você seria forte. Agora vá à polícia. O pen drive contém todas as gravações das ligações deles e as transferências bancárias ilegais que fizeram para o Dr. Kaufman. Acabe com eles.”
Engoli em seco. Olhei para a tela, intrigada. Se o sistema fora programado com antecedência, como Robert sabia que eu conseguiria escapar? Como sabia que eu iria à polícia naquele exato momento?
Digitei uma resposta com os dedos dormentes: Robert… você está mesmo morto? Por favor, não minta para mim.
O táxi avançava pela avenida iluminada, aproximando-se do prédio da polícia. Olhei fixamente para a tela, esperando. Um minuto. Dois minutos.
Finalmente, os três pontinhos de digitação apareceram na tela. Meu coração parecia que ia rasgar meu peito.
A mensagem chegou:
“O corpo no caixão era real, meu amor. Mas o que colocamos em movimento é eterno. Olhe para o banco do carona.”
Instintivamente, olhei para a frente. O taxista dirigia em silêncio. Mas no banco do carona, ao lado dele, havia uma pequena caixa de veludo azul, idêntica à que Robert me dera no nosso aniversário de trinta anos de casamento. Ao lado da caixa, um bilhete escrito à mão — com tinta fresca, borrada pela umidade do carro.
“Voe para a Suíça amanhã. Conta 404-B. Estarei esperando na cabana do lago.”
Olhei pelo espelho retrovisor e os olhos do motorista de táxi encontraram os meus. Ele me deu um aceno sutil com a cabeça e um sorriso caloroso. Não era um estranho. Era um dos antigos investigadores particulares que Robert contratava para a empresa.
O carro parou em frente à delegacia. Eu tinha o verdadeiro testamento nas mãos, as provas para destruir meus filhos e a verdade sobre a monstruosidade deles. Mas, acima de tudo, eu tinha uma escolha.
Entregaria o pen drive, assistiria à ruína de Charles e Hector e assumiria o império de Beverly Hills sozinha… ou deixaria o passado queimar na chuva e cruzaria o oceano em busca do homem que conseguiu enganar a própria morte?
Sorri pela primeira vez em dias, guardando o envelope e pegando a caixa de veludo.
— Senhor — disse eu ao motorista, guardando o revólver na bolsa —, mudei de ideia. Não vamos parar na delegacia. Leve-me direto para o aeroporto internacional.